Além da formação, outro desafio está na conexão entre a produção científica e sua aplicação prática. “O Brasil produz pesquisa de excelência, mas grande parte desse conhecimento não chega ao mercado”, destacou a gerente técnica do Senai-RS, Cristiane Becker, durante a palestra “A ascensão dos centros de pesquisa como construtores de tecnologia de ponta”, outra iniciativa do Sistema FIERGS neste primeiro dia de South Summit Brazil. Segundo Cristiane, há um distanciamento entre quem realiza pesquisa e quem desenvolve produtos, o que dificulta a maturação tecnológica necessária para que essas soluções avancem até a indústria.
No primeiro dia do South Summit Brazil 2026, nesta quarta-feira (25), o Sistema FIERGS colocou em pauta os desafios para transformar pesquisa em soluções para a indústria e ampliar o desenvolvimento de deep techs no Rio Grande do Sul.
O diretor de Sesi-RS, Senai-RS e IEL-RS, Claudio Gastal, abordou o tema no painel “Como fomentar as deep techs no RS”, realizado no palco RS Innovation. Gastal destacou que o avanço dessas tecnologias passa pela capacidade de transformar conhecimento científico em valor agregado, com potencial de criar setores econômicos e aumentar a competitividade da indústria. “O que rompe paradigmas e cria mercados é a ciência que se transforma em tecnologia e supera barreiras tecnológicas”, afirmou.
Para avançar nesta direção, as empresas poderão contar com um fundo de investimento voltado a deep techs no Rio Grande do Sul, com foco em ampliar a aplicação dessas tecnologias na indústria. A iniciativa envolve o Badesul e a Caixa de Administração da Dívida Pública Estadual (Cadip), com previsão de lançamento no segundo semestre e expectativa de mobilizar entre R$ 50 milhões e R$ 100 milhões.
Diferentemente de modelos tradicionais, as deep techs são empresas baseadas em descobertas científicas e tecnologias de alta complexidade, com aplicações em diversos setores, especialmente na indústria. Por essa razão, seu processo de desenvolvimento tende a ser mais prolongado, mas com alto potencial de geração de valor. No RS, o Sistema FIERGS é responsável pela implantação, em convênio com a Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii), do Cedra, um centro de competências criado com objetivo de investir no desenvolvimento de novas tecnologias (deep techs) com foco em agricultura digital.
Entre os entraves para sua consolidação estão pontos como financiamento, formação de talentos e a dificuldade de conexão entre academia e indústria, apontaram os especialistas do Senai-RS Gabriela Mendes, Betty Braga Gallo e Carolina Musse Branco no painel Do laboratório ao mercado: quem realmente constrói deep tech?, com mediação do gerente-executivo de Tecnologia e Inovação do Sistema FIERGS, Victor Gomes.
Para Carolina, o desenvolvimento dessas tecnologias não segue um roteiro linear. “São iniciativas que trabalham com tecnologias inéditas e, por isso, seguem trajetórias não lineares, de longo prazo e de alto risco”, afirmou, acrescentando que esse processo depende de quatro fatores principais: pessoas, infraestrutura, tempo e políticas públicas.
A formação de capital humano, no entanto, surge como um dos principais pontos de atenção. As painelistas destacaram a redução do interesse por áreas de ciência e tecnologia no Brasil, o que compromete a capacidade de desenvolver esse tipo de inovação. “Apesar do avanço na qualidade da pós-graduação, o número de pessoas interessadas em seguir na área de ciência e tecnologia vem diminuindo. Então, é preciso garantir financiamento contínuo e criar incentivos mais eficazes para atrair profissionais para a área científica”, afirmou Gabriela.






